Relatório de Acompanhamento da Conjuntura Econômica

 

Mês/Ano: Janeiro/2009

Economista Responsável: Dimária Silva e Meirelles

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A julgar pelos últimos dados sobre o nível da atividade econômica no Brasil, disponibilizados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), pode-se afirmar que o ciclo virtuoso de crescimento, iniciado em meados de 2003, aponta sinais de desaceleração e enfraquecimento, que podem refletir num cenário bem menos favorável em 2009.

 

A produção da indústria geral acumulou de janeiro a novembro de 2008 um crescimento de 4,7% em relação ao acumulado em igual período de 2007. É um crescimento razoável se comparado a período anteriores, como 2004 e 2005, em que o crescimento anual foi de 3%, entretanto dados da produção de outubro e novembro já refletem os efeitos da crise internacional. Como se pode observar no gráfico a seguir, até outubro de 2008 a indústria conseguiu crescer a taxas mensais positivas. Em novembro as taxas ficam negativas, tanto para a indústria de transformação (-6,3%) quanto extrativa mineral (4,6%).

 

 

Fonte: IBGE

 

Dentre os segmentos de uso, apenas bens de capital conseguiram apresentar uma taxa de crescimento mensal positiva (gráfico a seguir). Este é um setor que trabalha fundamentalmente com expectativas positivas, pois num cenário de pessimismo as decisões de investimento tendem a ser adiadas. Entretanto, em função do caráter de longo prazo destas decisões, normalmente as respostas às mudanças de ambiente não são imediatas.

 

No acumulado de janeiro a novembro de 2008 o segmento apresentou um crescimento de 17,0%, depois de já ter crescido 19,5% em igual período de 2007. Desde 2003 este segmento vinha apresentando uma taxa média de crescimento anual na faixa de 11%, contra uma média de 2,0% no decênio 1992-2002. Vale destacar que algumas modalidades de bens de capital, como a voltada para o setor agrícola, apresentou taxas de crescimento bem superiores. Como se pode observar no gráfico a seguir, a produção de peças agrícolas acumulou de janeiro a novembro de 2008 um crescimento de 67,9%, depois de apresentar uma queda de 69,0% em 2005.

 

Fonte: IBGE

 

 

Respondendo de forma mais imediata à crise, os segmentos de bens de consumo e bens intermediários apresentaram em novembro queda na produção industrial de 7,5% em relação a novembro de 2007.

 

Fonte: IBGE

 

No segmento de bens de consumo, a maior queda ocorreu na produção industrial de bens duráveis (-22,1%). Apenas o segmento de bens não duráveis conseguiu manter uma taxa positiva de crescimento em novembro (0,27%). Esta dinâmica diferenciada reflete o comportamento dos consumidores em momentos de retração econômica – inicialmente se reduz o consumo de bens menos essenciais, até mesmo em função das incertezas em relação ao comportamento futuro da economia e seu impacto sobre o nível de emprego, bens de consumo não duráveis são os últimos a serem ajustados no orçamento.

 Fonte: IBGE

 

Vale observar que dois indicadores importantes nas decisões de consumo (rendimento médio real e nível de emprego) ainda permanecem positivos. Nos últimos cinco anos nota-se uma queda gradual no volume de pessoal desocupado, saindo de um patamar de 2,5 milhões de pessoas no começo do ano de 2004 para 1,6 milhões no final de 2008. Ao mesmo tempo o rendimento médio real apresentou nesse período altas sucessivas, de R$ 1.086 em janeiro de 2004 para R$ 1.366 em novembro de 2008. Curioso observar a correlação negativa entre essas duas variáveis no mês de dezembro, onde a contratação temporária picos de aumento no rendimento médio real e redução na população desocupada.

 

Fonte: IBGE

 

Este ciclo positivo da renda e do emprego também se fez sentir nas vendas do comércio varejista. Como se pode observar no gráfico a seguir, após 2004 o volume de vendas e a receita nominal no comércio consegue crescer sistematicamente a taxas mensais positivas.

Fonte: IBGE

 

No acumulado de janeiro a novembro de 2008, comparativamente a igual período do ano anterior, houve um crescimento de 9,8% e 15,9% no volume de vendas e na receita nominal do comércio varejista, respectivamente. Interessante observar que desde meados de 2007 o crescimento da receita nominal é superior ao volume de vendas, indicando um poder maior de reajustes de preços. Analisando estas variáveis por segmento de atividade varejista, nota-se que os segmentos voltados para bens de consumo não duráveis e semiduráveis, como hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, tecidos e calçados, bem como outros artigos de uso pessoal e doméstico, são os que apresentaram o maior diferencial entre estas duas taxas.

Fonte: IBGE

 

A hipótese mark-up nestes segmentos do varejo se confirma quando se observa que no IPCA de 2008 os itens que apresentaram maior taxa de variação foram alimentação e bebidas (11%), seguidos de despesas pessoais (7,35%) e vestuário (7,3%).