Relatório de Acompanhamento da Conjuntura Econômica

Mês/Ano: Julho/2009
Economista Responsável: Dimária Silva e Meirelles

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PANORAMA ECONÔMICO

De acordo com os últimos dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a economia brasileira apresenta sinais de lenta recuperação, promovida, sobretudo, pelo mercado consumidor interno. Entretanto, o crescimento observado nas vendas do varejo não tem sido suficiente para uma rápida retomada de taxas positivas na indústria.

No acumulado do ano até junho, a produção industrial geral, de transformação e extrativa mineral apresenta uma queda de 13% em relação ao acumulado em igual período de 2008. Na comparação mês contra igual mês do ano anterior, a produção ainda apresenta taxas de variação mensais negativas (gráfico abaixo), porém desde o mês de abril estas taxas têm sido gradativamente menores, com destaque para a indústria extrativa mineral. Em junho, enquanto a queda da produção da indústria geral e de transformação foi de 11% em relação a junho do ano passado, na indústria extrativa mineral a queda foi de 9,3%.

Fonte: IBGE

Este crescimento em extrativa mineral se reflete no desempenho do segmento de bens intermediários. Como se pode observar no gráfico a seguir, desde o mês de abril este segmento vem apresentando uma tendência de recuperação, se aproximando das taxas mensais observadas no segmento de bens de consumo, até aqui o de melhor desempenho.

O pior desempenho ainda continua sendo o de bens de capital. No acumulado de janeiro a junho deste ano, a produção industrial de bens de capital apresentou queda de 23,0% em relação ao acumulado em igual período do ano passado. Nesta mesma base de comparação, o segmento de bens intermediários acumula queda na produção de 15,8% e bens de consumo uma queda de 7,2%.

Fonte: IBGE

No grupo de bens de consumo, o subsegmento que ainda apresenta o melhor desempenho é o de não duráveis, apesar de apresentar um comportamento mensal oscilante (gráfico a seguir). Desde março deste ano nota-se neste subsegmento uma seqüência de altos e baixos nas taxas mensais, porém a queda observada na comparação de junho/2008 em relação a junho/2009 é inexpressiva (0,8%) perante a registrada nos segmentos de bens duráveis (12,7%) e semiduráveis (12,5%). No acumulado de janeiro a junho a produção de bens de consumo não duráveis apresentou queda de apenas 1,3% em relação a igual período do ano passado. Já bens duráveis acumulam queda de 19,1% e semiduráveis 16,3%.

Fonte: IBGE

Curioso notar que as vendas no comércio varejista (gráfico abaixo) apresentam crescimento nos vários itens de consumo. No caso, por exemplo, de veículos, motos, peças e partes, pertencentes ao segmento de bens duráveis, o volume de vendas em junho deste ano foi 20,8% superior ao registrado em junho do ano passado. Apenas as vendas de móveis e eletrodomésticos (bens duráveis) e tecidos, vestuário e calçados (bens semiduráveis) apresentam quedas mensais recorrentes.

Fonte: IBGE

Na verdade, o fôlego do mercado interno não tem sido suficiente para alavancar a produção industrial. Como se pode observar no gráfico a seguir, as vendas externas têm mostrado recuperação nos segmentos de bens não duráveis e intermediários, justamente os que vêm apresentando melhor desempenho da produção industrial.

Fonte: Funcex

Mas os condicionantes do consumo continuam favoráveis, tanto em relação ao emprego quanto ao rendimento e crédito. Desde fevereiro deste ano nota-se um aumento do pessoal ocupado (gráfico abaixo), mesmo diante do crescimento da População Economicamente Ativa (PEA). O rendimento médio real em junho deste ano foi de R$ 1.310,00, contra R$ 1.258,00 registrado em junho do ano passado.

Fonte: IBGE

Os indicadores relativos ao crédito apresentam sinais positivos. As taxas de juros de operações de crédito referenciais no geral apresentaram queda neste primeiro semestre do ano (gráfico a seguir). Após atingir o percentual máximo de 44% ao ano em outubro de 2008 as taxas de juros voltaram aos níveis anteriores à crise, ou seja, entre 36% e 37% ao ano. Para pessoa física a queda nas taxas de juros é ainda mais significativa, saindo de 58% ao ano em outubro de 2008 para 45% ao ano em junho de 2009. Para estes mesmos meses nota-se que houve queda nas taxas de juros das operações de crédito para pessoa jurídica, porém bem mais atenuada, de 32% ao ano para 28% ao ano.

Fonte: Banco Central

Fonte: Banco Central

Interessante observar que o spread para operações de crédito em geral e especialmente para pessoa física apresentou queda significativa, porém para pessoa jurídica nota-se um aumento do spread, movimento que se iniciou na crise em setembro do ano passado e se mantém este ano (gráfico abaixo). Todavia é importante ressaltar que o spread para pessoa jurídica é bem inferior ao observado para pessoa física. Em junho deste ano o spread para pessoa física foi de 36% ao ano, enquanto o de pessoa jurídica ficou em 18% ao ano.

Fonte: Banco Central

Como resultado desta queda nas taxas referenciais, as operações de crédito pessoa física apresentam um melhor desempenho relativamente à pessoa jurídica (gráfico abaixo). Ao mesmo tempo, após um aumento significativo da inadimplência nos três primeiros meses do ano, nota-se um arrefecimento da inadimplência – um fator que reforça o movimento de expansão do crédito pessoa física.

Fonte: Banco Central

PANORAMA DE INVESTIMENTOS

O panorama mudou muito desde o início da crise em maio do ano passado. A Bovespa acelerou a recuperação nos últimos meses, alimentada principalmente pelo afluxo de capital estrangeiro. Embora as pessoas físicas nacionais tenham diminuído sua participação no mercado, o volume total de recursos investido na BOVESPA já se encontra num nível superior ao do início da crise. Isso aparentemente se deve ao fluxo de estrangeiros aliado aos lançamentos de ações ocorridos até o momento, com destaque para os da VALE e da VISANET.

Para que haja maior valorização de ativos será necessário que o afluxo de capital estrangeiro permaneça, o que é uma hipótese bastante viável

Fonte: Elaboração Própria

Embora no momento inicial da crise tenhamos sofrido mais, a partir de janeiro deste ano, refletindo a maior robustez econômica do país, o mercado acionário brasileiro tem efetivamente se descolado do americano. O Dólar, consequentemente, tem sistematicamente depreciado.

O câmbio no mês de agosto parece ter estabilizado, mas ainda é cedo para afirmá-lo consistentemente, pois isso já havia ocorrido no bimestre junho-julho, sem sustentar-se.

Fonte: Elaboração Própria

Embora tenha havido um movimento de correção nos últimos dias de agosto, ainda não há qualquer indicativo de que a tendência de alta venha a reverter. O fluxo de estrangeiros continua com muita força, acima de todas as suas médias móveis.

Fonte: Elaboração Própria

Entretanto, realmente deve-se esperar uma correção forte em algum momento. As altas ocorridas esse ano são fruto de uma expansão sem precedentes da base monetária global e não de uma recuperação da economia mundial, uma vez que a recessão ainda não acabou. Em decorrência disso, quando os bancos centrais começarem a enxugar o mercado, o aperto de crédito fará com que muitas posições precisem ser desmontadas. Se a economia real não for capaz de gerar riqueza o suficiente para contrabalançar a retração de base monetária, os preços dos ativos provavelmente cairão.

Embora o determinante dessa questão seja um fator político e não econômico, o aperto de crédito não é esperado para esse ano, e talvez para 2010, quando a economia mundial esteja se recuperando globalmente.